Trás os Montes - Podence

3 Março de 2025 - Carnaval em Podence

Trás os Montes - Podence

Bem cedo, no lugar de encontro, Bigorne, entrada na A24, juntamo-nos para aproveitar um dia de convívio. As previsões apontavam para um dia de primavera 16/20 graus, mas não foi essa a temperatura que encontramos em Bigorne. 6 graus. Fresquinho. Nevoeiro. mas o dia prometia.

Entramos na A24 em direção ao Peso da Régua, saimos em Valdigem e depois foi sempre pela N222 em direção a S. João da Pesqueira. 

Com mais de 225 quilómetros de extensão, a EN222 acompanha quase todo o percurso do rio Douro em território português, de Vila Nova de Gaia a Vila Nova de Foz Côa. Este percurso ao longo da margem esquerda do rio numa das mais belas regiões do país, classificada como Património Imaterial da Unesco, não deixa ninguém indiferente. A EN222 atravessa o Parque Arqueológico do Vale do Côa também Património da Humanidade, e dá acesso à Grande Rota do Vale do Côa, à Rota do Douro e a locais da Rota do Vinho do Porto e das Amendoeiras em Flor. O troço entre Peso da Régua e a vila do Pinhão foi considerado perfeito para conduzir ao longo dos seus 27 quilómetros com um total de 93 curvas.

Esta Estrada que cruza toda uma região emblemática revela o seu esplendor máximo ladeando o rio Douro na margem esquerda frente à Régua, passando pela Barragem de Bagaúste, até depois da Ponte das Bateiras sobre o rio Torto, afluente do Douro. Neste ponto, a EN222 sobe a encosta vinhateira até Vila Nova de Foz Côa e termina o seu percurso neste concelho, perto de Almendra, onde entronca com a EN332. No troço final atravessa o Parque Arqueológico do Vale do Côa, Património da Humanidade, permitindo também aceder à Grande Rota do Vale do Côa (GR45). A Estrada Nacional 222 permite percorrer a Rota do Douro e aceder a locais que integram a Rota do Vinho do Porto e a Rota das Amendoeiras em Flor.

Chegados ao Vale da Teja, virámos à esquerda em direção a Numão, pela estrada N222-4. Depois seguimos pela direita em direção à barragem do Catapereiro / Seixas do Douro. O nosso objetivo era tentar ver se ainda conseguiriamos encontrar algumas amendoeiras em flor. Amendoeiras? muitas. Flor? pouca. 

Encontramos uma temperatura fabulosa para passear de mota.  Neste Concelho de Vila Nova de Foz Côa vigora o microclima mediterrânico determinado pelas características do vale fluvial. O clima tem como principais caracteres, um Inverno frio com alguma chuva, em contraste com um Verão quente e muito seco. Património da Humanidade, quer pela região demarcada do Douro, quer pela arte rupestre que encontramos nas gravuras. De fato, não faltam motivos para visitar esta região de Portugal.

A estrada que fizemos a seguir foi das mais belas neste dia. A N324 Entre Murça do Douro e o Pocinho, passando pela aldeia de Mós e de Santo Amaro.

Chegados ao Pocinho, apanhamos o IP2 em direção a Junqueira, onde seguimos pela N102 em direção a Macedo de Cavaleiros. A ideia inicial era ir por Alfandega da Fé e subir a serra de Bornes, mas já estávamos atrasados para o almoço.

O restaurante escolhido em Macedo de Cavaleiros foi "O Montanhês". Talvez o dia não tenha sido o melhor para um repasto tranquilo, mas a qualidade da carne era do melhor. 

Seguimos para Podence. Aldeia conhecida pelos seus Caretos, Declarados Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO a 12 de dezembro de 2019, são uma marca de Trás os Montes. 

O Entrudo Chocalheiro, onde os Caretos de Podence (encenação pagã) dão cor com os seus trajes à aldeia e aos muitos turistas que por ali passam, enchem as ruas desta aldeia. ( em 2025 nos 4 dias, passaram por Podence, mais de 60 mil pessoas !!! )
Este evento ritual tendo origem no chamado "tempo longo", de organização da vida em função dos ritmos do ciclo agrário, reporta às festas de celebração do final do ciclo de inverno e início do ciclo produtivo da primavera. Singular relativamente a outras festividades de Carnaval realizadas noutros pontos do país e adaptando-se a um contexto socioeconómico pós-rural, a festa de Carnaval dos Caretos de Podence assume hoje particularidades próprias, através dos seus elementos – a máscara e o fato, dos comportamentos que caracterizam o ritual e os protagonistas da festa, os mascarados, conhecidos como "caretos", e da sua função social atual, assumindo um formato distintivo e único.

A tradição perde-se no tempo, uma tradição que esteve em vias de desaparecer nos anos sessenta e setenta, devido à emigração e à guerra Colonial do passado século.
O Careto de Podence é conhecido pelo seu comportamento performativo, "as chocalhadas" de que são alvo principal as mulheres, um ato simbólico que remete para uma origem remota e uma possível ligação a antigos rituais agrários e de fertilidade. Hoje, estes mascarados, que visitam as casas de vizinhos e familiares, num ritual de convivialidade, emigrantes que regressam à terra, constituindo-se, por isso, o Entrudo Chocalheiro como um momento essencial da vida dos descendentes de Podence, que regressam no Carnaval para dar continuidade à prática que herdaram de pais e avós.

Hoje, a festa é participada por "caretos" de idade e estado civil "variado" e já não apenas pelos rapazes solteiros, havendo até participação dos mais pequenos, a que chamam "facanitos" e de raparigas envergando fatos de "careto" dos pais, tios ou irmãos. A participação das raparigas é relativamente tolerada e permitida pela também relativa espontaneidade da organização das saídas dos "caretos" pelas ruas da aldeia. O objeto principal das investidas chocalheiras dos caretos é também mais amplo, abrange tanto as mulheres solteiras como as casadas, residentes, turistas ou visitantes da aldeia.
Os mascarados, não são apenas os residentes na aldeia, e sim os seus descendentes com ligações familiares e atuais à localidade, que habitando em localidades e cidades próximas ou não, ou ainda estando emigrados noutros países, regressam por altura da festa para participar no Carnaval.
Os "caretos" saindo à rua, no Domingo Gordo e na Terça-Feira de Carnaval, chocalham, gritam e amedrontam, saltando e correndo desenfreadamente pelas ruas da aldeia, empoleiram-se ainda nas varandas e entram nalgumas casas da aldeia, onde muitas vezes são convidados a comer e beber, exibindo, no entanto, um comportamento mais moderado do que em décadas anteriores, e que se revela mais adequado ao cenário atual da festa, mantendo bem viva a manifestação.

Terminada a festarola, era hora de seguir viagem. Ainda tinha 1h50 até casa e com o pôr do sol, chegava também o frio. O regresso foi feito pela A4 direção a Vila Real e depois a A24 até Castro Daire.

Em breve haverá mais novidades. 

Que Deus abençoe a vossa estrada.